sábado, 14 de fevereiro de 2009

Imenso Médio


Rio é uma entidade interessante. Um universo natural, geográfico, histórico e literário. Em Pirapora começa o imenso Médio São Francisco. Ia até Remanso, hoje vai até Sobradinho. Foi caminho natural. Bahia-Minas. Um longo plano sem cachoeiras, sem quedas. Estável e quente. O maciço de montanhas do sudeste abranda, praticamente termina e o vale se esparrama Brasil a fora entre o espinhaço e as serras gerais de Góias.

Aqui é região das veredas de buriti. Nascente de águas do grande sertão mineiro.

Porto de lembrança





Parado. Pirapora.




Assim me sinto: represa. Vejo o rio correr adiante e não saio do lugar. Neste caminho, nos momentos em que não ando alguma angústia se pronuncia mais identificável. O que espero? Esperar pode ser tão bom, quanto seguir mas por quê o coração sente? Penso nas águas paradas atrás dos muros esperando sua vez de passar pela barragem. Ora vertendo, ora produzindo energia. Acumular energia permite mais o trabalho. Trabalhar é bom? Idéias do trabalho sempre voltam a minha cabeça. Aqui o esforço de encontrar embarcação que me leverá enfim pelo rio se dissipa em conversas sobre o tempo que se navegava. Nada parte daqui. As chatas estão há dez anos paradas, na beirada, no mato. Até funcionando perfeitamente, dizem. Mas não navegam, não transportam. Um barco parte. O velho vapor, queimando eucalipto, apitando. Mas logo volta ao porto. É para amenizar saudade de velhos marinheiros.

Nada parte. Não se navega. Porto?



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Alto

Sigo o rio, ele escapa. Os primeiros passos do Alto São Francisco ficam em serras do sudeste. A Serra dos Alegres, Serra da Barcaça, a Canastra e o Espinhaço drenam águas. Meia Panela, muro dividor de águas. O vale no começo tem morros. O alto-rio não é navegável, 700 Km, corredeiras. Mesmo as estradas não margeiam. Vão no zigue-zague do relevo. Queria segui-lo todo mas tenho pressa para chegar na Lapa. Lá tenho marcado um encontro. E é muito chão. É muita água. Queria passar em Iguatama. Ver uma cidade na beira-rio do começo alto. Ver o tamanho do rio e o entorno. Mas passei. É perto de casa, vou de carro outra vez. Será? No caminho passando por Belo Horizonte cruzei afluentes, os rios que acabaram de sair das serras. Paraoabepas, Pará. Me conformei com eles. Na medida do olho achei que eles me davam a idéia do trecho inicial. Captação de leitos.
Agora estou no ônibus, parto de Três Marias, cruzo o eixo-rio pela ponte da estrada rumo ao entroncamento onde dobrarei para a Pirapora. À esquerda da ponte, olhando para sul, para a fonte, a primeira represa. Prisão das águas. Curral? A cidade das Marias fica dependurada no morro, ainda não é porto. É das últimas cidades do Alto. Ainda não tem largura, o vale. A barragem segurando as primeiras águas mexe nos ciclos. As cheias, os peixes nas lagoas. Atrapalha? Pela janela, à direita entendo: veio sulcando os planaltos e serras do leste-sudeste-centro para fazer a depressão sertaneja do São Francisco. Deste lado dá para imaginar o que está submerso do outro. Dá para ver o desenho que formaria as margens do lago se a barragem fosse mais a frente. É o vale menino.

Dilemas de estrada

Sigo?Fico?








Chove. Sigo em introduções. Aqui estou caminhando, molhado. Até então só rodiei a fonte. Vi o córrego que chamam de nascente, vi despencar por cima com muito custo. Quero ver o baú, o chapadão canastra, e ela, a fonte. Mas para a frente dela ninguém ia. Ninguém levava. Vou só, outra vez. Peguei um ônibus até onde dava. Cheguei na Vargem Bonita e segui no caminho dela, na contra-corrente do rio, que nestas alturas já é Rio, bonito no meio de seu vale. Até Sáo José do Barreiro 15 km, depois mais 1o km. Para chegar é preciso estar no caminho. Me lancei a pé e aqui estou caminhando na chuva, na estrada. Muito bicho. O tucano e outras flores. Ninguém passa. 25 km? A pé? Na chuva? E depois voltar para São Roque de Minas onde estou hospedado. O último ônibus, 18 horas. Meio dia, agora. Estou duas horas e meia caminhando. Devo ter caminhado 4 km. Estava olhando os pássaros de binóculos. Alguns carros passaram na direção contrária, umas motos e uns cavalos. Um carro que passou não parou. A menininha na garupa do cavalo perguntou sem fazer juízo: "-Vai caminhando?" Não parece sensato. Andando, revendo as últimas horas. Ir ou esperar? Esta pergunta, devia ter feito antes. Agora vou. Qual o justo ponto num dilema? Poucos dilemas interessam. Mulher ou Homem? Faz diferença! Mas não importa. Qualquer ponto entre homem e mulher é justo. Paz ou Guerra? Amor ou desamor? Vida ou morte? Dá dúvida? Quase não. Mas negar a guerra, o desamor e a morte me parece falho. Seguir ou voltar? Neste momento o desconforto o cansaço e perspectiva de terminar o dia andando sem ter onde ficar me traz um pingo de angústia. Calma. Poucos dilemas são importantes. O descolntrole, a deriva de boiar é o conforto de chegar no mar. E no mar se acabar. Se tiver cachoeiras? Depois eu penso, agora não avisto nenhuma. No povoado tem gente, se conversa. Caminho no contra-rio. Está chovendo. E aquele carro que esta vindo vai parar, uma moça vai me levar para uma pousada com comida farta, mineira, gente amiga, cachoeiras e novos pontos de vista da canastra e do grande salto. Seguir pode ser tão bom quanto ficar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Outra fonte

Encontrei já pelas bandas de Pirapora este trecho no livro O Médio São Francisco. Uma Sociedade de Pastores Guerreiros. É uma transcrição do livro Viagem as nascentes do Rio São Francisco e pela Província de Goiás de Saint-Hilaire. A idéia de que a cascata é a fonte já havia sido dita por ele:

"Penetramos em um bosque, e, em pouco, começamos a ouvir o ruído da cascata. Segundo informações que me tinhan dado momentos antes, sabia que ela caía ao lado meridional da Serra da Canastra. De repente avistei-lhe a parte superior, em pouco via-a completamente, tanto pelo menos que podíamos descobrir do lugar em que estávamos. Este espetáculo nos arrancou, a José Mariano e a mim, um grito de admiração. No lugar em que a água cai, os rochedos verticais da montanha abaixam-se um pouco no seu cume, e deixam ver uma fenda larga e profunda que, formando um zigue-zague, nos pareceu prolongar-se por dois terços da altura. Do ponto, ainda muito elevado, onde termina a garganta, derrama-se majestosamente uma bela cortina d´água cujo o volume é maior de um lado que de outro. O terreno, que se estende em um declive abaixo da cascata, é muito desigual; um cômoro, coberto de relva verdejante esconde a parte inferior da cortina d´água, e , do lado direito, desce em sua direção um bosque de coloração sombria. Esta é a fonte do São Francisco"

O altar

Primeiras águas

O que procuro? O rio? Rumo. Fui seguindo o bico do tucano. Nada convidativo. Quase ninguém no trajeto. Chuva, lama. E bicho. Canário, Pula-Pula, Pica-Pau, Campanhia Azul. Quase chegando no lugar que me indicaram, uma caroninha quase inútil. Capão Forro. A recepção foi estranha. Quem chegava e deu carona queria ver as cascatas de graça. Combinação prévia, com alguém que não estava. Sem acordo. Fiquei parado, olhando. Volto de carona? Economizo longa caminhada, lama e bicho. Fiquei quieto. "quer carona?" Não quis, fiquei.

O lugar parecia bonito. Cachoeiras com mais de 60 metros. Cinco cascatas. Me preparei para molhar. Os caras que cuidavam do sítio onde moravam as cascatas me alertavam, desconfiavam da inabilidade ou bestagem, muito prevalente e muito perigosa em corredeira em dia de chuva. Tranquilizei eles expressando a minha concordância com o risco e com a prevalência de desaprumados. Tranquilizaram e me ofereceram uma cachaça para colorir o passeio. A frieza deles, neste momento, amenizou. Aceitei. Foi tempo, a providência. A chuva desabou. "É só água voando", falou Kokada. Fiquei, e aí a coisa esparramou. Coluna de porco. na churrasqueira "Só o sabor, assim agente não fica pesado" falou o outro, Éder. Tava bom. Pupunha, cachaça, coca-cola e água voando. "Que agente quer mais?". Exaltávamos a tarde. Gente é legal. É a mesma esperteza em qualquer lugar. Esperança de quem se leva a sério, mais que os outros. Os dotorzinhos da capital, da grande academia se acham espertos. Espertos? São. Nada de mais. Como diria a filha de um taxista que virou estudante de medina na USP: "São 99% ricos e 1% inteligentes".
Os caras eram legais. Gente é que inventa a vida, cria novas soluções, recortam com novos olhares a mesma matéria. Gente boa.
A chuva rolou, a cachoeira encheu e foi a missa, primeira. As cachoeiras estavam zuando, não dava para se aproximar. O dia serviu de prenúncio. Onde eu estava? No berço de águas. Do outro lado da serra outras cascatas de outros riachos iam formar o São Francisco. O longo trajeto do rio que recebe e leva vida mundo a fora.