quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Alto

Sigo o rio, ele escapa. Os primeiros passos do Alto São Francisco ficam em serras do sudeste. A Serra dos Alegres, Serra da Barcaça, a Canastra e o Espinhaço drenam águas. Meia Panela, muro dividor de águas. O vale no começo tem morros. O alto-rio não é navegável, 700 Km, corredeiras. Mesmo as estradas não margeiam. Vão no zigue-zague do relevo. Queria segui-lo todo mas tenho pressa para chegar na Lapa. Lá tenho marcado um encontro. E é muito chão. É muita água. Queria passar em Iguatama. Ver uma cidade na beira-rio do começo alto. Ver o tamanho do rio e o entorno. Mas passei. É perto de casa, vou de carro outra vez. Será? No caminho passando por Belo Horizonte cruzei afluentes, os rios que acabaram de sair das serras. Paraoabepas, Pará. Me conformei com eles. Na medida do olho achei que eles me davam a idéia do trecho inicial. Captação de leitos.
Agora estou no ônibus, parto de Três Marias, cruzo o eixo-rio pela ponte da estrada rumo ao entroncamento onde dobrarei para a Pirapora. À esquerda da ponte, olhando para sul, para a fonte, a primeira represa. Prisão das águas. Curral? A cidade das Marias fica dependurada no morro, ainda não é porto. É das últimas cidades do Alto. Ainda não tem largura, o vale. A barragem segurando as primeiras águas mexe nos ciclos. As cheias, os peixes nas lagoas. Atrapalha? Pela janela, à direita entendo: veio sulcando os planaltos e serras do leste-sudeste-centro para fazer a depressão sertaneja do São Francisco. Deste lado dá para imaginar o que está submerso do outro. Dá para ver o desenho que formaria as margens do lago se a barragem fosse mais a frente. É o vale menino.

4 comentários:

  1. "O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia."
    Guimarães Rosa

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  2. O Poeta "navega" o sertão, investiga o Chico. Quer saber, perceber a nascente, o começo. Importante? Todo princípio conta. As respostas nem sempre satisfazem, não faz mal, o que vale é a investigação. Outro dilema, mas desta vez um ajuste prévio pesa na decisão. O que ficou pendente é difícil retomar, porém não é impossível, vai exigir determição. A Barragem... A água violenta é a água que violentamos. "A água assume um rancor, muda de sexo. Tornando-se má torna-se masculina." A linguagem das águas...uma realidade poética direta. Os córregos e os rios sonorizam com estranha fidelidade as paisagens mudas, o ruído das águas ensina os pássaros e os homens a cantar, a falar, a repetir. Há uma continuidade entre a palavra da água e a palavra humana. Vá em frente!

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  3. Isso tudo me lembra muito Alice no país das maravilhas.

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  4. "Velho Chico, vens de Minas
    De onde o oculto do mistério se escondeu
    Sei que o levas todo em ti, não me ensinas
    E eu sou só, eu só, eu só, eu
    Juazeiro, nem te lembras dessa tarde
    Petrolina, nem chegaste a perceber
    Mas, na voz que canta tudo ainda arde
    Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê?"
    Caetano Veloso

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